Reflexões de um Caracol à Beira da Estrada
Será a experiência estética a experiência do mundo.... o devir é um devir estético... ou será que devo atravessar a estrada?
quarta-feira, setembro 27, 2006
um post no Fórum Sons meu (e para variar, mal recebido)
bem, o post da revelação.... vai-me demorar algum tempo a escrever isto.Quem não gosta deste tipo de reflexões não leia, não comente ou se comentar com insultos, erros ortográficos (preocupação pela forma) e afins porque não tem capacidade intelectual para mais agradecia que se abstivesse de o fazer. Talvez neste post vejam um pouquinho do meu verdadeiro Eu.Quanto às motivações, de forma a ser perceptível, direi que o meu interesse é um genuíno gosto pela experiência social como fonte de reflexão do mundo que me rodeia. Muito boa gente não gosta de reflectir, age, sente e com isso afirma o primado da experiência sensorial (muitas vezes virtual e imediato) sobre a reflexão. Esta minha reflexão baseada na experiência social não é um ponto de partida absoluto, apenas uma visão de um cidadão numa dada época histórica e num dado posicionamento social. E ao partilha-la aqui, nesta comunidade virtual, nada mais é do que isso, uma partilha de uma visão diferente daquela que naturalmente todos vocês possuem.Mas sigamos em frente para aqui que eu acho que realmente interessa: a mediação das interacções sociais por meio da tecnologia, em especial a Internet e dentro desta as comunidades virtuais.Ora, se aqui alguns se bem se lembra, há cerca de 15 anos atrás, aquando do boom do mIRC fomentado pela primeira Guerra do Golfo e da utilização dessa tecnologia pelos jornalistas muitos dos intelectuais que se dedicavam à questão das novas tecnologias previam o aprofundamento do individualismo, do isolamento e da progressiva ausência de interacção social real. Passados 15 anos o fenómeno é exactamente o contrário. A internet potenciou novas formas de interacção, primeiramente virtual e depois reais, abriu novas esferas de intercepção de interesses, sentimentos, vontades, etc. Assim sendo, a presença quotidiana do espaço virtual nas nossas vidas trouxe-nos novos comportamentos reais, cujas consequencias em toda a economia e na sociedade ainda estamos a observar. No nosso caso concreto, a reflexão prende-se com o facto de que a presença desde novo meio de comunicação com o Outro, virtual, não apresenta fronteiras claras com o real. E aqui reside a questão central da reflexão. Todos nós construímos uma realidade social, na verdade, nunca temos a percepção da realidade como ela é pois não podemos estar em todo o lado. Isso acontece no nosso quotidiano real como no virtual. Agora o virtual tem uma particularidade interessante e em especial as comunidades virtuais como esta: a construção que nós fazemos do Outro através do Texto. Se na interacção social real a nossa imagem socialmente construída do Outro é feita de pequenas experiências partilhadas no quotidiano, pelos nossos sentidos (como o cheiro, o tacto, a visão, etc), do enquadramento simbólico que fazemos dele nos nossos universos particulares identitários, no mundo virtual ela é mediada pelo texto. “Não existindo expressões sociais, tom de voz, linguagem corporal, vestuário, ambiente físico comum ou quaisquer outras percepções contextuais indicadoras da presença física dos participantes num grupo social, os entusiastas da IRC servem-se de palavras para reconstruírem o contexto à sua imagem” (Rheingold: 200, 1996).Se no real temos na essência a imagem como referência, no virtual temos o texto como mediador previligiado. Pensaram alguns: compreensível, pois não podemos conhecer toda a gente de forma real. E aqui é coloco a questão da nossa contemporaneadade urbana na sociedade capitalista ocidental, que é a inversão dos universos simbólicos na percepção do Outro. Uma luta constante entre o real e o virtual, que é ao mesmo tempo uma luta constante sintomática da nossa procura pela nossa identidade. Se no passado a precepção social do Outro era realizada por um série de factores, como já referi, hoje, quem recorre às comunidades virtuais, tende cada vez mais a absolutizar a percepção do Outro através do texto (e este acente no suporte informático), como elemento mediador. Maria Agusta Babo disse a seguinte frase: “a identidade textual é consequência da capacidade que tem o texto de se desprender do seu contexto, do seu autor, da leitura e interpretação que lhe são contemporâneas” (Sopcom, 2001).Voltando ao nosso estudo de caso que é o fórum sons vamos fazer um pequeno exercício de abstracção: eu, enquanto cidadão real, é reconhecido numa rua por um outro cidadão que participa no fórum sons e que em face da construção de uma determinada ideia do Outro tem um acto impulsivo violento. Pergunta: toda a construção da precepção do outro é virtual, mediada por fragmentos de texto, com memória colectiva, mas muita das vezes descontextualizada. Na verdade, neste pequeno acto assistimos à inversão completa do critérios de percepção do Outro. Não se trata já de encontrar as fronteiras entre o real e o virtual, porque elas deixarm de existir. O virtual confunde-se com o real e o real com o virtual. No entanto, com a cada vez maior procura da nossa identidade por meios virtuais, como comunidades desde género, assistimos a uma necessidade de pertença indentitária virtual cada vez mais forte. Se cada vez caminhamos para uma sociedade onde os processos de informação são determinantes nas relações de poder, também será verdade que nos devemos preocupar com a forma cada vez absoluta com que o precesso de precepção da realidade social é mediada pela computação.Estes meses todos foram uma excelente experiência intelectual, permitiu observar comportamentos virtuais e reais. Ver o quanto, em Portugal, alguns pequenos grupos sociais estão na vanguarda de um determinado modelo de sociedade que a todos nós nos deve preocupar, pois a essência da nossa identidade deverá continuar a ser construída na interacção real com o Outro, na procura de intersubjectividades presenciais (sem com isso renegar, de modo nenhum, o papel das novas tecnologias numa nova construção, naturalmente mais fluída, social).Por fim deixo-vos aqui um excerto de um paper, intitulado "Identidade e interacção social em comunicação mediada por computador", que eu acho relevante:" Do Eu saturado ao Eu múltiploOs mundos sociais estáveis modernos, característicos duma América dos anos 50, entraram em colapso. Nos nossos dias, asaúde ou o bem-estar são descritos em termos de fluidez, mais do que em termos de estabilidade. O que interessa hoje em diaé a capacidade de mudança, de adaptação a novas tarefas, novos empregos, novas perspectivas de carreira, novos papéis atribuídosa cada um dos sexos, novas tecnologias. Sherry Turkle, observou nas suas entrevistas a presença de umEu fluido diferente do Eu múltiplo, o Eu saturado. Turkle fala de alguém que escreveu que ao participarmos em painéis de noticiaselectrónicos expondo as muitas facetas do nosso carácter começamos a assemelharmo-nos a uma pequena cadeia de lojas, e comoem qualquer organização, temos dentro de nós o sovina, o visionário, o sedutor, o fundamentalista ou a criança rebelde,estasvárias facetas acabam por se sobrepor umas às outras conforme as situações, num jogo de forças, acabando por colonizar na mentede outros utilizadores as diferentes facetas de nós próprios. Turkle cita ainda o psicólogo social Keneth Gergen e Howard Rheingoldpara explicar a ideia de saturação do Eu. Este último apresentou num tópico de discussão da WELL o conceito de Eu saturadoformulado por Gergen, em que “as novas tecnologias da comunicação nos levaram a colonizar os cérebros uns dos outros”, alémdisso “Somos personalidades múltiplas e incluímo-nos uns aos outros.” (Turkle: 383/385, 1997). E de facto Rheingold no seulivro, A Comunidade Virtual, conta-nos que ao entrar pela primeira vez no quartel-general da WELL para conhecer MatthewMcClure, o seu director, exclamou “Isto parece uma mente colectiva!”(Rheingold: 141, 1996), abrindo espaço para uma analogiacom a ideia de mente constituída ao mesmo tempo por milhares de pessoas.Sherry Turkle cita Robert Jay Lifton quando este afirma que “a velha noção unitária já não é viável, dado que a cultura tradicionalentrou em colapso” (Turkle: 384, 1997)e como resposta a este facto apresenta 3 hipóteses: a primeira consiste na insistênciadogmática na unidade - que representa uma batalha perdida -, a segunda é um regresso a sistemas de crença religiosa fundamentalistacomo forma de impor uma união – e desde o 11 de Setembro temos assistido a manifestações desses fundamentalismos-, e a terceira consiste em aceitarmos a ideia de um Eu simplesmente fragmentado. Mas Lifton afirma que esta última poria emrisco os valores morais e uma forma interior sustentável, assim a única saída será baseada em transformações fluidas, assentes nacoerência e numa perspectiva moral. (Turkle: 385, 1997).A chave para a nossa sobrevivência numa sociedade contemporânea, é sermos ao mesmo tempo múltiplos e coerentes. Os sitespessoais que hoje em dia proliferam na Web, são um exemplo claro da nossa multiplicidade de identidades, ou melhor da nossacoerência dentro da multiplicidade de referências que constroem a nossa identidade, são também o reflexo do indivíduo como um nónuma rede de informação na sociedade em geral, assim assumimos personalidades cada vez mais flexíveis, estabelecemos linksde identidade.A possibilidade de assumir múltiplas identidades oferece às pessoas, dependendo dos seus perfil e historial psicológicos,“sensações diversas de desconforto na fragmentação da sua identidade, sensações de alívio, possibilidades de autodescoberta ou até deautotransformação” (Turkle: 388, 1997). O contrário de ter identidades múltiplas, - e aqui a autora denota o seu background na àreada psicologia e psicanálise associando as identidades a manifestações de personalidades, - seria um indivíduo que viveria numasociedade rígida fortemente hierarquizada e com papéis bem definidos, censurando todas as outras identidades/personalidades quepossui, logo não tendo acesso às mesmas. “As identidades virtuais são objectos-propiciadores-dopensamento” (Turkle: 388, 1997), afirma Turkle a dada altura, tal como os sonhos analisados por Freud e os lapsos de linguagem numa perspectiva Derridiana, introduziram nas pessoas ideias sobre as outras identidades que possuem.ConclusãoApresentamos aqui uma tentativa de classificação das várias formas de CMC abordadas pelos autores, conforme o seu impactosocial (ver quadro 1) nos utilizadores, classificação esta que requere mais e aprofundados estudos.Numa análise rápida poderíamos afirmar que o e-mail tem um baixo impacto social uma vez que não vive tanto da imediaticidadedas respostas, enquanto o IRC, os MUDs e as BBSs têm um alto impacto social, uma vez que cada um destes três últimos vivemmuito mais da interacção imediata, que importam para esse No entanto é necessário aprofundar esta classificação, umavez que o IRC não possui memória colectiva, e essa é muito importante para a construção progressiva de cibermundos e das suaspersonagens. O MUD pelas suas características de role-playing é onde os utilizadores assumem aspectos da sua identidade maiscomplexos como extensões da sua identidade, será talvez a forma de CMC com maior impacto social, e como afirma Jill Walker,desempenhar um papel em jogos corresponde à construção narrativa de personagens. (Walker: 39, 2000). Assim proporíamospor, ordem decrescente: os MUDs ou outros jogos que exijam o role-play; as BBSs a WELL ou comunidades virtuais; e por fimo IRC ou outros programas de chat e o e-mail em circunstâncias semelhantes de impacto social na interacção.Parece-nos que com os estudos na àrea da psicanálise de Sherry Turkle e a visão da construção narrativa de identidades de JillWalker,os utilizadores andam todos a fazer psicanálise involuntariamente assumindo papéis os quais não procuravam de todo, masa CMC está aí para ficar e as pessoas estão agora a começar a reflectir sobre o impacto destas formas de comunicação nas suasvidas.Identidades em criseDesde as crianças que sonham com os super-heróis da TV até ao cientista que trabalha em Inteligência Artificial ou em robótica, todos nós sonhamos de qualquer forma em melhorar as capacidades do nosso corpo, em tornarmo-nos um pouco cyborgs paraalém do que já é tecnicamente possível. As fronteiras entre o real e o virtual têm vindo a reduzir drásticamente, desde que começámosa experimentar sensações de imersão e multiplicidade de identidades cada vez mais profundos, primeiro em mundos virtuaisconstruídos na nossa mente, depois em Realidade Virtual.Fica por resolver ainda a maior questão técnica relativa ao nosso corpo, os mundos estão lá construídos em palavras ou eminterfaces gráficos, à nossa espera. Norbert Wiener em God and Golem, e citado por Sherry Turkle, afirma: “Esta é uma ideia coma qual já antes brinquei – a de que é conceptualmente possível um ser humano ser enviado através de um fio telegráfico” (Turkle:396, 1997), Wiener deixa em aberto a possibilidade de num futuro próximo, o nosso corpo começa a ter um papel importante naconstrução de cibermundos.As comunidades virtuais são assim o terreno de pesquisa e experimentação para pensar acerca da identidade humana em geralna era da Internet, no fundo é disso que se trata, do Homem colocado perante os seus limites e repensando a sua evolução, nestecontexto a Internet torna-se um espaço para descobrir o significado experiencial de uma cultura simulada, que se adivinha aindamais desenvolvida em torno da Realidade Virtual. As visões futuristas de filmes como Matrix dos irmãos Andy e Larry Wachowskiou Existenz de David Cronemberg não andarão longe de um futuro possível que será muito mais exigente com as pessoas doponto de vista da utilização de múltiplas identidades e sua fluidez.Afirma Sherry Turkle que “Não temos que rejeitar a vida no ecrã, mas também não temos que tratá-la como uma vida alternativa.Podemos usá-la como espaço de crescimento” (Turkle:394, 1997), e para já parece-nos ser um conselho sensato, assimdepende de nós aprendermos a aceitar a multiplicidade de identidades e aprendermos a lidar cada vez melhor com as nossas vidasvirtuais e reais. "Volto a dizer, se as regras que foram aqui impostas pelos moderadores forem cumpridas o meu papel aqui está feito. Ao contrário de alguns que não conseguem fazer abstracções além dos seus universos particulares e projectam no Outro virtual as suas próprias características, eu não acho nem nunca achei que o mundo ande à minha volta, agora, também não acho que sou indiferente ao mundo que me rodeia e em especial à comunidade onde habito. Todos nós podemos fazer alguma coisa para melhorarmos a nossa convivência em sociedade, independentemente dos caminhos que escolhemos para o fazer.... Este post foi editado por Mikasmokas em Sep 27 2006, 12:09 PM.
posted by Mikasmokas @ 9/27/2006  
1 Comments:
  • At 29 setembro, 2006 00:12, Blogger lady.bug said…

    Interessante o desdobramento do nosso «eu» em múltiplos nicks e pseudo-nomes... uma espécie de outrar, como diria o Pessoa.

     
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